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Milly Lacombe

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OpiniãoEsporte

pokerstars - Pelo fim do chá revelação

O chá revelação não é apenas uma aberração estética, é também uma deformidade ética.

Em nome de seu cancelamento talvez pudéssemos apenas argumentar usando o caráter tão escancaradamente cafona desse tipo de celebração.

Tomemos como exemplo o chá revelação do deputado bolsonarista Nikolas Ferreira, que contou com o amigão Neymar de MC: os vídeos deveriam ser usados como ponto máximo da cafonice alcançada em vida, exemplo a ser evitado, congregação do que há de mais vexatório e constrangedor.

Não bastasse a dimensão de ridículo da fumaça, do exibicionismo e da ostentação, o deputado está alinhado a ideologias abjetas e desumanas.

Para abrir uma porta no fundo do poço, tivemos a orgulhosa participação especial daquele que é defendido por alguns como ídolo. Se há ainda argumentos para defender Neymar dentro de campo, fora de campo ele é indefensável.

Ou quem sabe pudéssemos usar como argumento contra essas festas o fato de alguns chás revelação terem acabado em morte (de um piloto no México contratado para jogar pó cor-de-rosa sobre papai e mamãe que, eufóricos, não notaram a queda da aeronave) ou em sufocamento temporário dos pais inundados pela fumaça.

Mas quero abordar outro aspecto: a violência contida no regime da diferença sexual exaltada por esse tipo de evento.

Quando um médico diz "é menino" ou "é menina" vem com a declaração um destino.

Se é menino vai vestir azul, vai ser viril, não vai chorar, não vai mostrar fraqueza, vai jogar bola, vai aprender a não levar desaforo para casa.

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Se é menina, vai usar cor-de-rosa, vai ser doce, brincar de boneca, ser gentil e se preparar para encontrar um homem que a sustente e a proteja.

Sabemos que tipo de delinquências estão associadas a essas sentenças.

Não há homem que suporte o mundo em suas costas sem ter que recorrer a diversas válvulas de escape, como drogas ou violência.

E não há mulher que, educada para ser objeto, deixe de ser abusada, explorada, assediada, oprimida.

O regime da diferença sexual é um modelo de existência agressivo e limitante. Homens e mulheres se enjaulam nele. Homens não percebem as grades que os aprisiona; mulheres começam a enxergar as suas.

Essa ideia que fazemos do que é ser homem e do que é ser mulher é uma construção.

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Anatomia não define o que é um e o que é outro porque, se formos optar por ela, teremos que falar também de hormônios e cromossomos. E aí a coisa complica porque há tantos desvios e complexidades que não temos como bater o martelo.

Uma regra básica para que não caiamos em equívocos que podem acabar em tragédias e genocídios é sempre fugir de aspectos biológicos para traçar ideologias.

Somos ensinadas a ser homem e a ser mulher nesse mundo de acordo com a cartilha construída por uma civilização colonizadora, imperialista e heteronormativa.

Há inúmeras civilizações que nunca tiveram esse tipo de diferenciação hierárquica e funcionaram sem violências. E aqui não falo apenas da violência cometida diariamente contra mulheres. Há uma violência tremenda nas exigências feitas sobre a masculinidade.

É extremamente violento não poder chorar, não poder sentir, não poder se deixar atravessar, não poder ser vulnerável, ter que aguentar o mundo nas costas sem reclamar. Contra essa opressão, homens buscam escapes. Ao sermos abusados, tendemos a abusar outras pessoas num jogo de sucessões que nunca tem fim.

Sufocar futuros pais e mães com fumaças azul ou rosa é perpetuar essas violências num teatro macabro de gosto duvidoso.

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Já explodir o regime da diferença sexual nos libertaria a todos.

Estamos longe desse dia, mas caminhamos para ele - para desespero daqueles que tudo o que sabem fazer é seguir a cartilha do que é ser uma coisa ou do que é ser outra.

Se tudo o que você sabe na vida é ser viril e não acessar seus reais desejos, então esse novo mundo é mesmo uma ameaça.

Mas para a maioria de nós, esse novo mundo é libertador.

Nele, haverá mais amor e menos dor. Haverá famílias que não serão núcleos hierárquicos e repressores.

E, nesse mundo, os chás revelação constarão dos livros de história para mostrar que, por algum tempo, fomos capazes de cometer violências inomináveis fantasiadas de celebrações cafonas e vulgares.

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Concluo com Paul Preciado, filósofo, homem trans e ativista pelo fim do regime da diferença sexual:

"Fazer uma transição é compreender que os códigos culturais da masculinidade e da feminilidade são anedóticos se comparados às infinitas modalidades de existência".

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pokerstars.

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